Um mágico amador

Parece tamanha a ousadia que tens em sumir, obrigar-me a ler coisas antigas tuas e aumentar minha ansiedade em ter notícias! Saia da minha cabeça. Materialize-se à minha frente a qualquer momento.

Odeio esse mistério no ar.

Parece-me até que tens vocação para ser mágico.

Desaparece no “gran finale”, deixando uma inocente criança de olhos vidrados no último lugar em que foi visto, ainda indagando quando iria voltar a vê-lo. E então prepara o próximo espetáculo, no qual enfeitiçará a mesma criança ingênua com alguns truques de magia barata. É adorável arrancar um sorriso fácil dela. Assim como é doloroso vê-lo se desmanchar subitamente a cada novo truque de “invisibilidade”.

Porque a criança não quer ver seu mágico ir embora. Ela quer continuar a se fascinar por cada movimento seu, simplesmente por ser seu.

Então a criança, agora adolescente – e boba como todo e qualquer adolescente -, relembra-se do tal mágico amador e corre atrás para ser sua assistente. Porque assistentes e secretárias sempre têm um caso com o chefe. Mas ela queria mais que isso. Queria descobrir todas as suas manhas e finalmente entender o que ele tinha em especial para fazê-la se sentir daquela maneira. Queria desvendar todo seu mistério, passo a passo.

O encanto desfeito e as manobras descobertas. Ainda assim, não estava tudo acabado. Queria, agora, participar integralmente de cada truque e, quem sabe, reaparecer em uma outra dimensão da vida depois de entrar no famoso armário que a teletransportaria para qualquer lugar.

Chega o grande dia. Ela iria, finalmente, viver a sensação de parar em outro lugar em um piscar de olhos. A platéia, lotada de crianças eufóricas, ansiando pelo momento em que a assistente simpática do mágico – ainda amador – atravessasse a tal porta e nunca mais voltasse, pois o mágico continuaria ali de qualquer forma. De tão amador que era o mágico – e era muito mais amador o que sentia por sua mera assistente -, ela nunca mais voltou. Nunca mais voltou para a vida dele, que comemorou fervorosamente o sucesso do espetáculo.

 

Subjetivo

Não seja assim. Ser direto é sempre bom, né.

Eu, pelo menos, não sou vidente e nem tenho uma boa intuição pras coisas. Não adivinho, sabe como é…

Entenda que meus olhos são castanhos, e não da cor das dunas ao pôr-do-sol.

Quer deixar um ar misterioso? Faça mágicas, são mais interessantes.

Sem enrolação. Não vamos adiar situações, pensamentos, ações, oportunidades.

Tempo é dinheiro. Em barras de ouro, que valem mais do que dinheiro.