Automático e aleatório

Penso que minha mente entrou de férias por mais tempo do que devia e agora tá difícil de voltar a ativa. E como é que eu estou vivendo? Não estou. Não conscientemente, nem impulsivamente. É algo diferente. Automático e meio que aleatório.

Tirei um tempo pra ficar desligada do mundo e não estou nem um pouco afim religar, quase me conformando com isso. Está tudo mais estável e parecendo resolvido. Parece errado e estranho, mas tá sendo a solução pra mim, pelo menos por agora.

E eu não gosto quando escrevo coisas pessoais demais, assim, tão diretamente. Isso sim foi automático e aleatório. Não vou aqui aparecer por obrigação, mas por necessidade, obrigada.

I may be rude but I’m the truth, yeah

As pessoas estão se tornando cada vez mais arrogantes. Sempre tem alguém querendo se fazer de esperto e se mostrar cheio da razão. Pura arrogância. É certo que sempre queremos melhorar, mas por que querer sempre ser melhor do que os outros? Por que não tentar ser o melhor para si e para os outros? Sendo assim, você passa a ser o melhor ao ver das outras pessoas. Ser o melhor não significa massacrar e humilhar quem você considera ser a minoria. Não significa querer se mostrar inteligente, mas sim ser inteligente. Porque as aparências realmente enganam, não é mesmo?

Quem apenas parece o melhor só leva méritos por quem tem medo e se submete a tal humilhação. Parabéns, você conseguiu vários súditos, cheios de fraquezas, por sinal… Ser o melhor é que faz a real diferença. E é aí que você ganha seguidores no twitter e admiradores fieis. Beneficia e é  recompensado de alguma forma por isso. Como é  boa a sensação de trabalho bem feito!

A arrogância está corroendo as pessoas por pura ambição. Isso realmente me incomoda e digo que ignorar não é a solução. Todos deveriam virar hippies e espalhar a paz mundial e a veneração à natureza e ao ar livre. Talvez.

Tento e sei ser agradável, na medida do possível. Até porque nem todos suportam meus momentos de sarcasmo. Auto-controle. Essa é a chave. As pessoas arrogantes deveriam ser assim somente para quem as suportar. E é aí que entra a solução final: não suportem e nem se acomodem a isso. Já escuto os sinos tocarem. A paz mundial reinará. Mas sinos não tocam do nada em seus ouvidos.

Acomodar-se ou incomodar-se?

Eu sei, mas não devia.

Marina Colasanti.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.